Plataforma: Carolina Krieger – O Espelho do Avesso

O mundo acontece, não para. A todo instante um novo estímulo e uma nova história nasce diante de nossos olhos. A cada olhar, uma percepção da vida, da natureza. Motivação, inspiração e, enfim, a transpiração que move, que conduz, que transforma uma ideia em imagem-sonho. É realidade? É fantasia? Precisa nominar? No espelho, nos olhos, na alma. A gente vê e não vê. A gente busca. A gente entende? Basta sentir, abrir o peito, deixar a dúvida nos virar pelo avesso. E assim pulsar. E assim ser.

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

“O Espelho do Avesso”, ensaio de Carolina Krieger me abraçou. Um abraço demorado, apertado, daqueles que alenta, que acolhe e seca as lágrimas. Mas um abraço de um desconhecido, que tamanha intensidade, perturba, amedronta. Suas fotografias brincam com a suavidade, a força, o grito e o silêncio. São vivas, intensas. Olho, olho e a cada novo olhar um despertar de uma nova pergunta. Sim, esse trabalho de Carolina incita a dúvida. A dúvida que move, que inquieta, que constrói uma série de caminhos imaginários, que nos leva a ir desvendando, aos pouquinhos, as camadas profundas dos sentimentos, das memórias e ausências delas.

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

Aos meus olhos, em “O Espelho do Avesso” Carolina fotografa sensações. Tranquilas? Nem um pouco. Vejo um limite tênue entre a tensão da transição do sonho para o pesadelo. Não amedronta, mas é capaz de me despertar do sono, com a respiração ofegante e o coração disparado. Esse é um trabalho que me faz me sentir viva, humana.

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

No texto curatorial da exposição de Carolina no Ateliê Aberto, em Campinas-SP, Ana Luisa Lima escreve de maneira bem bonita essa sensação do medo e do alento:

“De repente somos assaltados por algum vazio e isso, por si só, parece ser motivo bastante de profunda angústia. Mas há vazios e vazios. Uns que significam a falta e outros que estão inundados de presença. Naquilo que se sabe a falta, mora uma dor. Contudo, já se deu conta daquilo que se faz presente ainda que não se pode nominar? É neste vazio que a alma está abrigada: onde não se sabe quando começa e termina um prazer.”

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O que me encanta no trabalho da Carolina é a forma segura como ela fotografa. Seus trabalhos têm unidade, têm sempre um fio condutor, um grande tema muito bem definido (vale ler o #Diálogo Ensaio: uma necessidade? de Ana Lira e os comentários para entender melhor a questão do “grande tema”). Carolina está muito presente em suas fotografias. Depois que vi o documentário Extensão do Olhar – A fotografia como autorretrato, de Cássia Kuriyama, comecei a perceber e sentir essa auto-representação mais forte no trabalho de alguns fotógrafos. E como essa percepção é bonita! Inconsciente ou não, todos nós depositamos um pouco (ou muito) de nós mesmos nas fotografias que fazemos e isso é muito forte no trabalho de Carolina. Seu trabalho é um autorretrato, que desvenda toda a delicadeza, força, poesia, luz e escuridão presentes nela.

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

O Espelho do Avesso | Carolina Krieger

“O Espelho do Avesso”, composto por 15 imagens, é um ensaio que trata da (in)distinção a partir de uma narrativa em aberto. Carolina diz que através da fotografia alcança uma cumplicidade maior com o que a cerca, se sentindo mais íntima das coisas. E a cumplicidade está bem presente nesse trabalho. O estalo inicial, o nascer da ideia veio à partir de uma sintonia bela que existe entre ela e sua irmã gêmea, Isadora Krieger, que é poeta. Em uma noite, Isadora dividiu com a irmã um trecho de um romance que estava escrevendo e Carolina, despertou, fotografando um sonho, uma fenda para a consciência da unidade de um mundo silencioso.

“Quando vimos um cão correndo na beira, na beira do mar e na sua, sim, ela existe dentro de nós, é na beira que a contemplação começa, é na contemplação que começa a brecha, e a brecha, termina onde? E se eu te disser que nunca termina? E se eu te disser mais, disser que o nunca termina parece muito com a vez que vimos um cão correndo na beira, quando o mar virou ouro molinho, todo derramado, respingando dourado aqui e ali, quando vimos o fogo junto com a água, o acima com o embaixo, o lá longe com o cá perto, quando nos vimos com patas e vimos o cão com pernas, tudo misturado, quando vimos o acontecer tão imenso que o esticar nem sequer existia, absurdo e natural, assim.”

Isadora Krieger

Para ver o ensaio completo, basta acessar o Tumblr de Carolina Krieger.

Sobre Priscilla Buhr

Fotógrafa, Recife
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